domingo, 8 de março de 2009

Mulher Negra Rezadeira

MULHER NEGRA REZADEIRA


D. Lourdes veio para o Rio de Janeiro em 1944, em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), durante a 2ª Guerra Mundial, atrás do companheiro de quem tinha parido o primeiro filho.
Trabalhou em casa de família, fábricas, cervejaria, lavanderia, lanchonete, bar, enfim, só em serviços pesados, devido a sua falta de instrução.
Teve mais 5 (cinco) filhos, dos quais 2 (dois) faleceram ainda muito pequenos. Criou os 4 (quatro), sempre preocupada que pudessem estudar para não passarem pelo que ela passou na vida. Uma vez, diante de sua filha nascida antes do caçula, ajoelhou-se e jurou que se dependesse dela, jamais suas filhas seriam empregadas domésticas. Não queria que elas sofressem nem um terço do que ela passou, desde a sua infância muito pobre, tendo que ajudar na roça para colher o sustento para si, sua avó, seu pai e seu irmão caçula. Perdeu sua mãe muito cedo em um acidente em que foi vítima da irresponsabilidade de pessoas que roubavam fiação de uma padaria, localizada na frente de onde morava. Deixaram um fio desencapado encostado no arame que servia de varal e quando sua mãe estendeu um lençol molhado, recebeu uma carga elétrica tão forte que a matou. D. Lourdes, nesta ocasião, com mais ou menos uns quatro anos de idade, só teve tempo de segurar seu irmão caçula que engatinhando, dirigia-se ao corpo de sua mãe estendido no chão e totalmente carbonizado. Com o falecimento de sua genitora, passaram a ser criados pela avó, porque o pai era um “nego fulo”, descendente de negros nascidos na vigência da lei do Ventre Livre e que não era muito afeto a trabalho. De vez em quando chegava a notícia de que fora preso por vadiagem. Quando a mulher era viva era ela quem ia tirá-lo da cadeia.
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Herdou da avó, que a criou, o dom da reza. De tanto vê-la rezando crianças e adultos que a procuravam com diversas queixas e essas pessoas se livrarem do mal que as acometia, foi observando o que a avó falava e fazia para dar alívio a todos que a procuravam. Exercitando a oralidade, começou brincando de rezar seu único irmão, mais novo quatro anos do que ela. Depois que teve seus filhos os rezava e os medicava com chá de ervas. O conhecimento sobre as ervas foi adquirido na época em que ajudava a avó no plantio, na roça, e nessas ocasiões a avó ia dizendo-lhe o nome das ervas e o que elas curavam.

Quando D.Lourdes veio da Bahia, foi morar com seu companheiro, em um cortiço na Rua Getúlio, no bairro Méier, tanto que batizou todos os filhos, desde o mais velho que nascera na Bahia, até os que nasceram quando morava lá, na Igreja do Sagrado Coração de Maria, ali naquele bairro. Morou naquele lugar durante alguns anos, depois se mudaram para uma casa em Vila Rosaly.
Como seu companheiro era o mais velho de dezoito irmãos, sua casa ficou sendo referência para todos os amigos e parentes que vinham da Bahia. Ele era alfaiate, desenvolvia seu ofício na Cinelândia, exatamente na Praça Marechal Floriano, no 4º andar do antigo Edifício Império, onde alugava uma sala. Todos conheciam o Pontes, alfaiate. Costurava para os artistas negros, da época: Jamelão, Blackout, Zé Kéti, Grande Otelo e muitos outros. Também era quem fazia os costumes da Araci de Almeida, além de ter feito muitas fantasias para os componentes da escola de samba Mangueira, a pedido de seu irmão Alberto, que era diretor de Harmonia. As festas comemorativas como Natal, Dia dos Pais, Dia das Mães e aniversários eram motivo para as reuniões e quando a baianada estava reunida, D.Lourdes era tomada por manifestações estranhas, como se espíritos tomassem seu corpo, que a castigavam, batendo com seu corpo contra as paredes e falava que queria ver sangue, porque ela não queria aceitar que tinha que procurar um terreiro para fazer o santo. Ela não acreditava em espiritismo porque era católica e não saía da igreja rezando e pedindo à N. Srª da Conceição, santa de sua devoção, para que aquela ”coisa” não se apoderasse mais de seu corpo. O tempo foi passando e a coisa só foi piorando.Um dia, ao apossar-se de seu corpo, “aquilo” falou que se ela não fosse procurar um terreiro de candomblé para fazer o santo, sua vida viraria um inferno: iria perder o marido, com quem havia finalmente se casado, um de seus filhos ficaria cego, uma de suas filhas seria atropelada e a outra sofreria sérias queimaduras, mesmo após esses avisos ela continuava indo e levando os filhos para a igreja católica. As meninas até fizeram primeira comunhão.
Um belo dia, saiu para trabalhar e, quando voltou, não encontrou o marido. Ele havia saído de casa e fora morar com sua tia Biloca, que tinha vindo recentemente da Bahia e estava morando em Agostinho Porto. Esta saída dele a deixou desorientada, porque o filho caçula levara uma pedrada no olho esquerdo que lhe vazou a menina dos olhos, deixando-o cego
daquela vista. Esta tinha sido uma das previsões que aquele espírito havia feito. Em seguida, as outras previsões foram se concretizando. Sua filha, abaixo do mais velho, sofreu um atropelamento na Rodovia Presidente Dutra, em 27 de setembro de 1956, dia de São Cosme e São Damião, fraturando o crânio em três lugares, além de ter fraturado as duas pernas com horríveis fraturas externas. Ela teve que ficar internada por seis meses no Hospital Getúlio Vargas, quando passou por cirurgias na cabeça e teve platina implantada em suas duas pernas para colar os dois ossos fêmur. Como tinha apenas doze anos, na época, a sua recuperação foi vitoriosa. Durante todo esse tempo, D. Lurdes ficou direto com sua filha no hospital. Havia contratado uma empregada chamada Ilda, antes de seu marido sair de casa e foi ela quem foi socorrer sua filha, quando esta sofreu o atropelamento, comunicando-lhe, depois.
Um dia, pela manhã, bem cedo, quando estava indo para o trabalho D. Lourdes nem se deu conta de que estava vestindo apenas uma combinação, peça usada sob o vestido, até pouco tempo atrás por todas as mulheres. Ao vê-la daquele jeito, uma amiga que era companheira de viajem e que freqüentava um terreiro de candomblé, resolveu levá-la para que sua mãe de santo cuidasse dela. D.Lourdes resistiu, não queria ir de jeito nenhum e foi preciso amarrar-lhe os punhos para conseguir levá-la. Ao chegar à Casa da Yalorixá Natalina, em Agostinho Porto, ela já estava esperando-a porque tinha visto no jogo de búzios, que iria chegar uma pessoa, naquelas condições, a quem ela teria que raspar e correr com todas as despesas, porque seria o primeiro Ogum de sua casa. D. Lourdes ficou seis meses na camarinha porque devido a não aceitar aquela religião, o seu Orixá não incorporava totalmente e foi preciso muita persuasão, para convencê-la de que havia recebido aquela herança de seus ancestrais e que, já estava passando da hora dela ser iniciada no Candomblé. Só quando soube que, se não se convencesse, as desgraças iriam continuar a acontecer com sua família, pois antes dela ser levada pela amiga, também já havia acontecido a queimadura em sua outra filha, de apenas sete anos quando, ao tentar fazer um chá para o irmão caçula, sem querer, virou a água fervente sobre si, queimando-lhe todo o lado direito, desde o peito até a cintura, com queimaduras de 2º e 3ºgraus, cujas marcas ainda carrega no corpo.
Yá Natalina mandou que levassem os filhos de D.Lourdes, para o barracão, a fim de amenizar o sofrimento dela, que nunca havia se separado deles e isso, também era um dos motivos, pelos quais se recusava a aceitar, todo aquele sacrifício da feitura de santo no Candomblé, naquela época de 1957.
As crianças curtiam as danças, os cânticos, as rezas e as comidas, só não gostavam de acordar às seis horas da manhã, para tomar aquele banho frio de abô. Passavam por todos os ensinamentos dos Yaôs. Aprenderam a dançar para todos os Orixás e a reconhecer quando cada um deles estava em terra, incorporado em alguém, aprenderam a ”língua de Congo”, era como chamavam os termos em Yorubá que aprenderam a falar. Adoravam conversar com os Erês e as meninas gostavam de usar as roupas de ração para ajudar a cuidar do barracão e também na cozinha. Finalmente, Ogum conseguiu incorporar totalmente no seu cavalo e a partir daí, D. Lourdes deixou o catolicismo de lado e defendia com unhas e dentes os seus Orixás e os seus Erês, sim ela incorporava o Joãozinho, que era de Ogum e a Sinhazinha, que era de Iansã. Ela ganhou esses dois porque havia uma disputa pela sua cabeça entre esses dois Orixás. Na época em que seu marido ainda vivia com ela, ele procurou muitas casas de santo para ver se conseguiam convencê-la de que tinha que ser raspada. Uma dessas casas foi a de Siriaco, antigo Babalaô, que tinha um terreiro em Vilar dos Teles. Outro foi Djalma de Lalu, cuja cabeça era de Exu Lalu, mas em nenhum desses lugares, Ogum quis ser feito. Neles, D. Lourdes sentia mal-estar e logo se retirava.
Depois que fez o santo, as coisas começaram a mudar, embora tudo que havia perdido não tenha sido recuperado, como seu marido, que nunca voltou para casa, e seu filho caçula que ficou cego vindo a falecer aos 30 anos, porque envolveu-se com o tráfico de drogas e foi brutalmente assassinado. Mas em compensação, enquanto as crianças eram pequenas, não mais sofreram acidentes.
Quando saiu da casa do santo foi morar em Vila Isabel, no Morro dos Macacos, no barraco de seu irmão Vadinho, que havia levado seus filhos para morar com ele, já no finalzinho de seu recolhimento, na casa de santo. Eram dois irmãos muito unidos, mas que não conseguiam conviver sob o mesmo teto. Vadinho era muito mulherengo e era dado a bater na companheira Neuza, que apanhava sem reagir. D. Lourdes, que não admitia covardia, na primeira vez que viu aquela cena, partiu para cima do irmão com panelas, vassoura e tudo que encontrava pelo caminho ensinando, assim, a mulher dele a reagir. Neuza aprendeu e dali pra frente não apanhou mais do Vadinho. Ele ficou com raiva da irmã a quem acusava de estar destruindo o seu lar. D. Lourdes decidiu sair da casa dele e convenceu a alguns moradores a ajudá-la a construir seu próprio barraco. Escolheu uma área acima do barraco de seu irmão e, depois de passar uma noite com os filhos acometidos de gripe asiática sob uma cabana improvisada, uns voluntários resolveram ajudá-la e passaram uma noite trabalhando, para colocar de pé uma moradia para aquela guerreira, a despeito de um tal de Justo, ter telefonado para a polícia, queixando-se, que haviam construído um barraco durante a noite, no caminho de sua casa. Pela manhã, quando os policiais chegaram e viram aquele barraco tosco, com uma mulher e quatro crianças doentes, passou uma espinafração no tal de Justo, que estava na janela de sua casa assistindo de camarote, pensando que iam colocar o barraco de D. Lourdes abaixo, como era de praxe a polícia fazer. Ele ficou na bronca porque havia passado uma cantada e ela deu-lhe um fora e aí, para se vingar, deu parte na polícia, alegando que o barraco estava impedindo o acesso a sua casa. Os policiais perguntaram-lhe se não tinha vergonha de estar bem instalado em sua casa e querendo que fosse derrubado um barraco que não impedia em nada a sua passagem.
Como D. Lourdes era uma mulata muito bonita, no auge de seus 37(trinta e sete) anos, as mulheres do morro começaram a ter ciúmes de seus maridos com ela. Uma vez, duas delas foram desafiá-la em sua porta, chamando-a de safada. Ela não conversou, partiu pra cima das duas mulheres e naquela hora, parecia que Exu de Ogum havia incorporado nela. Bateu muito numa das mulheres e só a largou, quando sentiu uma pancada muito forte na cabeça, dada pela outra mulher. Foi só o tempo de se recompor e partir pra dentro da outra, jogando-a ribanceira abaixo, quando todos puderam ver que estava sem calcinhas, apenas com um pano entre as pernas porque estava de Chico. Foi motivo de gozação pela vizinhança durante bastante tempo. As duas, com a cara quebrada foram para a delegacia dar parte da D. Lourdes, que, nessa altura, para sair do flagrante, foi para a sua casa de santo e, no dia seguinte foi à delegacia, onde havia um detetive que tinha uma queda por ela. Ele aliviou a situação dizendo que se elas queriam ser submetidas a corpo de delito, a D. Lourdes também o seria e elas seriam prejudicadas porque foram duas contra uma. Elas desistiram da queixa e quando ele deu o papel para que assinassem, nenhumas das duas sabia escrever o nome siquer. Receberam uma bronca e ele as aconselhou a que, em vez de ficarem arranjando briga com vizinhas, que ficassem em casa, com um lápis e papel, tentando aprender a escrever os seus nomes, que era bem melhor. Saíram cabisbaixas e nunca mais se meteram com a Baiana, como era chamada a D.Lourdes, lá em Vila Isabel, nos morros do Jardim, dos Macacos e do Pau-da-Bandeira. Era muito respeitada porque quando a polícia prendia algum morador que ela conhecia e sabia que era trabalhador, ela valia-se da queda do detetive por ela e não deixava levar o morador preso. Uma vez queriam levar um rapaz que era doente mental, porque estava sem documentos, foram avisá-la e ela desceu o morro numa velocidade incrível e não deixou levarem o rapaz que morava no Morro do Pau-da-Bandeira, mas que ela conhecia e sabia que ele era doente. Naquele dia, todos foram agradecer-lhe e ela virou liderança da redondeza. Quando seu filho mais velho completou dezoito anos, ela deu uma festa, com chope da Brahma e tudo. Contratou um regional composto por fugitivos das penitenciárias. Lá pelas tantas, a polícia chegou e queria levar todos presos, mas a Baiana intercedeu, pois conhecia a todos os policiais e pediu a eles que deixassem a festa rolar e voltassem pela manhã para levá-los. Quando clareou o dia, ela mandou que todos fossem embora e quando a polícia chegou para buscá-los ela disse que eles haviam fugido e que ela não tinha conseguido impedi-los.
Havia no Morro do Jardim, uma jovem mulher fugitiva da Penitenciária de Mulheres, chamada Georgina. D. Lourdes tinha pena por ser ela tão jovem, dizia ter 19 anos, e ter que viver se escondendo da polícia, por isso, quando ela estava fugindo, permitia que ficasse escondida embaixo da cama das crianças até a polícia ir-se embora. Nessa época, o filho mais velho de D.Lourdes estava servindo ao Exército e ela havia vendido aquele barraco construído no alto e com o dinheiro recebido, comprou material e construiu, junto com uns vizinhos e os filhos, um barraco de estuque, com um quarto para seu filho mais velho. Como havia vários rapazes na faixa etária dele, que eram seus amigos e também estavam servindo ao Exército, que ficavam elogiando sua farda sempre bem engomada e passada, ele pediu a D. Lourdes se ela não podia cuidar das fardas dos seus amigos, também. Ela aceitou a incumbência. Um deles era o Zé Preto, de quem a Georgina gostava. Um dia, ela tomou umas cachaças e foi querer tirar onda com a D.Lourdes dizendo: “Ô Baiana sabe que você é muito da safada?” D. Lourdes retrucou dizendo que safada era ela que estava cuspindo no prato que comeu. Ao que ela respondeu: “por falar nisso, faz um bife aí pra mim comer agora”. Não prestou. D.Lourdes partiu pra cima de Georgina e meteu a mão nos seus seios, para ver se ela estava com a navalha que costumava cortar a cara dos desafetos e, como não achou a arma, passou a bater na cara dela com tanta ira, que ela pediu socorro, ao pessoal que estava assistindo da porta da tendinha do Pernambuco que ficava em frente ao seu barraco. Do outro lado, lá do Morro do Pau-da-Bandeira, ouvia-se os gritos de “dá-lhe, Baiana!”. A metida a valentona Georgina, que botava até homem pra correr, ficou desmoralizada.

Depois que foi feita no santo é que D. Lourdes descobriu que tinha o dom da reza, quando pôs a mão sobre a cabeça de um menino que estava com muita dor de cabeça e que já havia tomado analgésicos e a dor não passava, repetiu umas palavras que ouvia sua avó dizer quando rezava dor de cabeça de alguém e a dor do menino passou como por milagre. Virou a Baiana rezadeira lá do morro.
Rezava espinhela caída, nervo torcido, cobreiro, mau olhado, quebranto, dor de dentes, dor de cabeça, dor de barriga, erisipela, etc. e acreditem, curava mesmo. Seu lema era: “Reza não se paga e nem se agradece” só assim é que funciona. Também sabia fazer umas simpatias para bronquites, para hemorróidas, para erisipela, sarampo, catapora, etc. Tudo herdado, oralmente, de seus ancestrais que, depois de feita no santo, soube fazer por intuição.
Tinha um dom de se concentrar olhando no copo virgem com água e dizer o que estava acontecendo com alguém que se encontrava distante dali.
Depois que Yá Natalina faleceu, andou em várias Casas, procurando retirar a Mão de Vu e atualizar suas obrigações, pois ainda não tinha feito a de sete anos. Encontrou muitos Pais-de-Santo que tiveram inveja de seus dons. Um deles, Tatalorixá Adauto, lá do Morro dos Macacos, a fez gastar o que tinha e o que não tinha e não fez obrigação nenhuma, era tudo de ekê (mentira) e só o que fez foi viciá-la em Persantim e outros comprimidos para tirar o sono e que gerava dependência. Foi uma luta para ela deixar de tomá-los.
Depois de alguns anos foi morar na Taquara, em Jacarepaguá, quando conheceu o Pai-de-santo Jorge de Iemanjá, que atualizou suas obrigações e tirou a Mão de Vu, mas tirou-lhe, também, aquela vidência com o copo d’água. Além disso, como era exímia passadeira, ele a explorava e mandava que engomasse e passasse todas as roupas das outras filhas de santo da casa. Certo dia, quando passava roupa, ela começou a passar mal e ele teve coragem de mandá-la para casa, sozinha. Foi quando ela sofreu seu primeiro derrame e, se sua filha não chegasse cedo do trabalho para socorrê-la, talvez ela não tivesse resistido tantos anos mais, pois isso foi em 1975.
Com o falecimento de Jorge de Iemanjá, a Baiana voltou a procurar uma Casa de Santo para desenvolver-se. Como ela foi raspada na nação Jêje, buscava uma casa que fosse da mesma raiz, para freqüentar. Encontrava muitas, que eram de Angola ou de Umbanda e não ficava porque não se sentia bem nelas. Um dia, conversando com sua filha caçula, expressou a vontade que tinha de fazer as obrigações de seu Pai Ogum, mas que estava encontrando dificuldades para achar o lugar certo. Todos os seus filhos tinham uma fé enorme nos seus Orixás, mas essa filha, era aquela que, quando Ogum estava em terra, ela traduzia o que ele falava porque ele só se expressava em Yorubá, que ela havia aprendido na casa de Yá Natalina e que chamava de “língua de Congo”. Ela era a Ekede de Ogum, informalmente, pois nunca fizera nenhuma obrigação para isso. Conversava com ele, quando incorporado em sua mãe ou não. Numa dessas ocasiões, dirigiu-se à quartinha de Ogum e disse: “meu avô, me indique um caminho, para eu encontrar uma casa de sua raiz, para minha mãe poder atualizar suas obrigações”. Passado algum tempo, mudaram-se para a Rua Maria José, em Madureira, e, naquela rua, havia um terreiro de Candomblé. Baiana foi num dia de toque e voltou dizendo que lá era “misturado” e que não havia gostado, mas acontece que conheceu um rapaz, de Oxossi, chamado Lúcio, que por não ter nenhum parente consangüíneo, passou a adotar D. Lourdes e seus filhos como sua família. Um dia ela falou pra ele da sua busca por um terreiro de sua raiz. Ele disse que conhecia um Pai-de-Santo, cuja nação era Jêje, e que se chamava João d’Oxossi, na casa de quem ele dava obrigações para o seu Orixá, pois Lúcio também era de Oxossi. Combinaram o dia e Lúcio a levou à casa de João. Ao chegar lá, D. Lourdes só lhe disse que fora lá, para que ele abrisse o jogo de búzios para ela, e, quando João jogou os búzios, viu que Ogum queria que ele atualizasse suas obrigações. Porque João era da mesma raiz, vindo a ser sobrinho de santo de D. Lourdes. Ogum havia encontrado a casa onde queria ficar. Foram feitas as obrigações e era engraçado ver aquela senhora chamando de pai a um jovem de vinte e poucos anos, naquela época.
Ultimamente, devido as suas limitações, por causa das artroses generalizadas nos joelhos e na coluna, já não atuava em todo o seu potencial. Rezas que precisassem suspender as pessoas ou levantá-las nas costas, ela não tinha mais condições físicas de realizar, em compensação, sua reza conseguia fazer efeito à distância. Constantemente sua filha abaixo do mais velho, telefonava de Vila Kennedy, onde mora, e pedia a ela para rezá-la ou aos bisnetos e depois ligava novamente para dizer que o mal que os acometia desaparecera depois da reza.
Além de rezar, também levava para casa, crianças abandonadas que encontrava pela rua. Criou muitos filhos dos outros. Dizia sempre que se fosse uma pessoa de posses levaria para sua casa todas as crianças que encontrasse nas ruas. Quando morou em Vila Isabel, no Morro do Jardim, lá pelos anos 60, transformou seu barraco em creche, onde cuidava dos filhos das mães solteiras que iam trabalhar e não tinham com quem deixar os filhos e, quando essas mulheres ficavam desempregadas, iam trabalhar na creche até arranjar outro trabalho porque lá, comiam e alimentavam os filhos. Também transformou o barraco em pensão, pois excelente cozinheira que era, começou fornecendo marmitas para os trabalhadores da oficina mecânica, na Rua Visconde de Santa Isabel, onde seu filho mais velho foi aprender a profissão de lanterneiro, com 11 (onze) anos de idade. Depois, os trabalhadores todos os dias subiam o Morro do Jardim, de macacão sujo de graxa, para ir comer a comida gostosa que a Baiana fazia. Pagavam-lhe no sábado, quando recebiam.
Quando chegou em casa chorando, sua filha do meio, que passara no concurso de admissão para o Colégio Estadual Visconde de Cairu, dizendo que telefonara para o pai e que ele dissera não poder lhe dar porque não tinha, os cinco cruzeiros para fazer a matrícula, D. Lourdes não pensou duas vezes, arrancou o botijão de gás do fogão e foi na tendinha de Pernambuco, pedindo-lhe que empenhasse aquele botijão, porque ela precisava do dinheiro para pagar a matrícula de sua filha e assim, a menina não perdeu sua vaga. Ela ficou cozinhando no fogão a querosene, famoso fogão Jacaré, até quando pôde pagar e resgatar o botijão, que empenhara com o Pernambuco.
D. Lourdes foi uma grande guerreira, que, após ter sido abandonada pelo marido, em 1956, jamais seguiu os conselhos de vizinhos e amigos que a mandavam deixar os filhos em colégio interno. Trabalhou, lutou e conseguiu dar educação a todos eles.
Faleceu lúcida aos 87 anos, 09 meses e 17 dias, em 28 de dezembro de 2006.


Por Avanir Carvalho Pontes
Filha de Maria de Lourdes Carvalho Pontes

3 comentários:

Byazinha disse...

Mulher guerreira. Parabens pela mae, Avanir.

Fabiano disse...

Fiquei comovido com a história de vida de sua mãe. Uma verdadeira guerreira, um exemplo. Deus a tenha! Obrigado por compartilhar sua história!

abraços,

Fabiano

Claudia Ehlers Peixoto disse...

Uma história de vida linda apesar de sofrida. Ninguém da família herdou o dom de rezadeira?